‘Je Vous Salue, Marie’, obra de Godard que causou tumulto no governo Sarney

O texto a seguir se interessa, dentre outros aspectos circundantes, pela cobertura jornalística pautada em “Je Vous Salue, Marie”, produção cinematográfica do cineasta franco-suíço Jean-Luc Godard. Também buscamos cruzar o diálogo entre os conceitos de ideologias e mentalidades sobrepostos aos valores morais, éticos e políticos que compunham a atmosfera nacional durante o período de lançamento do filme no país, isto é, no início de 1985. Sem se afastar do mecanismo hierárquico do Poder público daquele momento, também comentamos a intromissão influente e decisória da Igreja Católica na primeira gestão da Nova República.

A produção do cineasta Jean-Luc Godard, “Je Vous Salue, Marie”, foi lançada mundialmente em 1985. Com temática veladamente religiosa, visto que os personagens principais se chamavam Maria e José e sugeria contemporização de uma história conhecida em detalhes pela cultura ocidental, o filme com pouco mais de uma hora de duração não foi aceito no Brasil chefiado por José Sarney, que assumiu a presidência ainda sob resquícios das políticas persecutórias e proibitivas da ditadura. Subalterno ao primeiro líder civil subsequente ao Golpe de 1964 estava Fernando Lyra, então Ministro da Justiça, que assumiu a pasta no mesmo ano do lançamento do filme proibido. E na ponta da Divisão de Censura de Diversões Públicas da Polícia Federal, órgão institucional criado justamente para analisar produções culturais produzidas nacional e internacionalmente, estava Coriolano Fagundes recebendo ordens e instruções vindas do ministro e do Chefe do Departamento de Polícia Federal, Cel. Luiz de Alencar Araripe, sem manifestação pública a respeito do filme. Mais adiante perceberemos que foi essa dinâmica política que atuou no cerceamento do filme no país.

Vale salientar a postura desviante de José Sarney na condução do processo que se instalou nos arredores do filme em questão. Diferente das lideranças políticas que antecederam o emedebista, até mesmo antes do período militar, tendo em vista que medidas censórias acontecem desde o Brasil Colônia, o presidente desempenhou conduta protagonista, estampando o noticiário com declarações e posicionamentos nitidamente unilaterais: em contrariedade à exibição de “Je Vous Salue, Marie”. A figura do chefe de Estado até aquele momento seguia à sombra dos subordinados e suas personificações. Desse modo, falamos dos agentes do Ministério da Justiça (MJ), do Departamento de Polícia Federal (DPF) e da Divisão de Censura às Diversões Públicas (DCDP). Eram os representantes desses órgãos, não o presidente, quem respondiam por todas as decisões e práticas censórias oficializadas no país até a promulgação da Constituição Federal em outubro 1988, quando todas essas pastas e suas variantes ganharam outros nomes, mudaram de ministério ou foram extintas. Com isso, fica dado o fato de que a perseguição às diversões públicas não findou com a abertura política, muito menos com a chegada de um civil ao Poder: a tendência persecutória apenas terminou, nos moldes como atuava, com a implementação do conjunto de leis vigente até os tempos atuais.

Quem confere sentido às expressões de ideologia e mentalidade é o historiador francês Michel Vovelle (1991) e, dessa maneira, serão esses conceitos perpassados nas atitudes dos personagens trazidos no trabalho. Ambas se sobrepõem, dirá o autor, mas cada uma tem seu sentido e perspectiva prática. Ideologia seria, dentre alguns significados, “o conjunto de representações, mas também de práticas e comportamentos conscientes ou inconscientes” (VOVELLE, 1991, p. 11). Já mentalidade tem sua definição mais abrangente e se aproxima daquilo que podemos chamar de “inconsciente coletivo ou imaginário coletivo”. (VOVELLE, 1991, p. 21).

“Je Vous Salue, Marie” sob foco constante da igreja e da política brasileira

“Eu Vos Saúdo, Maria”, título traduzido para a edição brasileira, despertou a atenção e os olhares críticos de inúmeros setores no país de origem, a França, mas também no Brasil. Parte resumida da imprensa nacional, na altura do lançamento, noticiou que lá fora o filme havia sido julgado e liberado para a exibição sob a defesa primária da liberdade individual e não limitação da expressão artística. Quem defendeu tal posicionamento foi Pierre Drai, juiz empenhado em salvaguardar os direitos da criação godardiana, completando: “Nada neste filme o torna pornográfico ou particularmente obsceno”. O trabalho jurídico do magistrado francês, falecido em 2013, demonstrou que até mesmo parte da mentalidade francesa enxergava no filme características que desabonassem a fé cristã e a imagem santificada de Maria, mãe imaculada de Jesus Cristo. Portanto, em que chave os jogos da mentalidade se inserem nesse cenário onde, judicialmente, foi decidido pela liberação da produção cinematográfica debatida? Em determinada medida, a decisão tomada pelo jurista francês consistiu na quebra da lógica temporal estabelecida socialmente, ou seja, houve certa ruptura às forças da inércia das estruturas mentais, como descreveu Michel Vovelle (1991) ao falar do conformismo das sociedades frente aos acontecimentos históricos. Compreende-se, todavia, que a consciência e reação de Drai diante da tentativa reducionista da cultura e seu agente não sinalizaram somente a abertura da liberdade artística, mas estabeleceu, naquele momento, algum limite disposto a frear futuros ataques censórios, e colaborou com o desenvolvimento das diversões públicas da França. Se não fosse a tomada de decisão desse sujeito também ideológico, amparado pelas balizas constitucionais de seu país, a produção de Godard passaria pelo mesmo processo conturbado que teve no Brasil, terreno onde as regras da Constituição foram suspensas para abrigar sobre ela os desejos de específicos grupos sociais e políticos.

Marie, interpretada pela atriz Myriem Roussel – Foto: Reprodução

O que liga a França, o Brasil, a censura, o ano de 1985 e o filme de Jean-Luc Godard, ao menos nessa primeira fase da análise, é a posição e o poder da Igreja Católica frente ao Poder público. Tanto a atmosfera europeia quanto a brasileira, deixando de lado a colonização no qual o Brasil foi submetido, prestavam continência aos ditames do clero católico e, ao mesmo tempo, submetiam a laicidade do país aos desejos religiosos. Embora a França tenha conseguido se desligar da efetivação da censura, como se viu anteriormente, até à sentença jurídica conclusiva “Je Vous Salue, Marie” se viu ameaçado e posto sob suspensão. Nessas décadas, para tomarmos nota do conjunto de aspectos que rondavam esse período, a personificação religiosa de alta santidade vinha do Papa João Paulo II, considerado um líder católico importante, mas com práticas e defesas conservadoras. No âmbito nacional, associações católicas como a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), Centro Bíblico Católico (SP), Museu de Maria (PE) e outras movimentações religiosas espalhadas pelo país continuaram influenciando o Poder na transição militar para civil.

Como principal motivo para a não liberação de “Je Vous Salue, Marie”, José Sarney defendeu, por intermédio da secretaria de imprensa da Presidência, no dia 5 de fevereiro de 1986, o seguinte posicionamento: “O presidente é católico, lê o Evangelho toda noite e vai à missa todo fim de semana; não quer contrariar o espírito cristão do povo brasileiro”. De todo modo, na declaração em questão, percebe-se como a religiosidade do período influenciou uma decisão contra os valores artísticos e individuais; por causa desses grupos organizados a limitação esbarrou em todo o restante do país, se configurando, objetivamente, como censura à diversão pública, mecanismo censório que sujeitava filmes, peças teatrais, músicas, novelas, etc. a escrutínio. Ampliando brevemente o mapa geográfico por onde o filme foi recebido, partindo do Brasil, os católicos argentinos ameaçaram não seguir com a programação das igrejas caso ele fosse liberado e exibido ao público; com os italianos não teve muito alvoroço, o que não se repetiu em outras nacionalidades europeias; nos Estados Unidos “o filme é exibido em circuito meio subterrâneo, pois os exibidores têm medo da reação agressiva dos católicos”. (SIMÕES, 1999, p. 244).

Para um seguimento conservador, surgiam outros libertários e progressistas. A mídia nacional deu conta de dar vozes a eles também, talvez não na mesma quantidade, mas esses sujeitos, a seu modo, explanaram suas próprias reinvindicações pedindo a liberação, sem cortes, do filme francês em terras brasileiras. Outro ponto importante nesse momento e que contribuiu para a leitura subjetiva do tempo é que, ao final daquele ano aconteceria as eleições para deputados, senadores e governadores onde o PMDB (atual MDB), partido do presidente Sarney, ocupou parte majoritariamente expressiva no Congresso Federal. A política agiu sob orientação religiosa no processo censório, mas não se absteve dos interesses primários de sua dinâmica natural, ou seja, a tentativa de controle social e a manutenção do Poder.

Apoiado à Igreja Católica, Sarney proibiu a exibição de “Je Vous Salue, Marie” visando benefícios políticos – Foto: Wilson Pedrosa/Metrópoles

Na contramão de Sarney e da força centrípeta da Igreja Católica, entidades reconhecidas protestaram a favor da manifestação do pensamento e da criação artística. Tendo em vista o governo civil, entendiam que ações como essas destacadas não faziam sentido na Nova República, e seguir atuando dentro dos moldes arbitrários configuraria, para eles, menosprezo à grande parcela da sociedade brasileira que almejava, também, o fim ideológico da ditadura. Os assassinatos, a tortura, os atos institucionais, para exemplificar, foram medidas práticas da repressão, mas o regime agiu debaixo de determinadas atmosferas condutoras. Para tanto, era necessário que se extinguisse definitivamente a mentalidade censória para que, no campo social, pudesse se identificar as mudanças.

O que paira, deste modo, debaixo dessa atmosfera temporal? A quem ela está atrelada e quem são seus agentes? Primeiramente, afirmar que sob ela estão os costumes de uma época, os anseios e perspectivas compartilháveis de uma determinada sociedade: “a criança, a mãe, a família, o amor e a sexualidade… a morte”. (VOVELLE, 1991, p. 16). Se fosse possível resumir esse complexo de expressões que tentam sintetizar o pensamento de grupos sociais e suas condutas individuais e sociopolíticas, essa ação seria potencialmente frustrada por conta das mutações que suas significações sofrem ao longo do tempo. Mas, nessa intenção, é possível se aproximar de algo que podemos chamar de horizontalização da inconsciência coletiva ou, até mesmo, mentalidade. Mais abrangente que a definição de ideologia, dirá o autor francês, essa outra linha de leitura historiográfica também possibilita jogar luz em problemáticas e atitudes adjacentes à “Eu Vos Saúdo, Maria”, buscando, através desses entendimentos, encontrar meandros que justifiquem a recepção tão indigesta do filme no Brasil. Vovelle (1991) lança a definição de mentalidade trazendo Robert Mandrou mas, ao elogiá-lo, ele também renega seu esforço, afirmando que “uma história das visões de mundo” é “incontestavelmente vaga”. E na mesma esteira ele propõe uma coesão possível na busca da compreensão em torno das mentalidades.

Em um primeiro nível, o conceito de mentalidade se constitui, como observamos mais amplo que o de ideologia: ele integra o que não está formulado, o que permanece aparentemente como “não significante”, o que se conserva muito encoberto ao nível das motivações inconscientes. (VOVELLE, 1991, p. 19). 

Mudando a chave temática e ideológica, digamos assim, assinaram o manifesto a favor de “Je Vous Salue, Marie”, no início de 1986, os seguintes grupos: Associação dos Escritores do Estado, Casa do Jornalista, Associação dos Produtores Cinematográficos, Sindicato dos Publicitários entre outros. Durante parte significativa da história brasileira, sindicatos e associações também detiveram poderes persuasivos, tanto para reinvindicações de direita quanto para esquerda. Ao longo dos anos, esses grupos sociopolíticos foram perdendo força de decisão capilarizada, mas é possível constatar nessa conjuntura outra grande instituição entrecruzando e sinalizando o norte do produto cinematográfico de Godard.Em todo caso, a igreja encontrou pelo caminho sujeitos dispostos a encarar aqueles que defendiam a censura, a imposição e a limitação do desenvolvimento cultural do país. Porque era esse o anseio dos grupos conservadores, por isso definidos como tal: cercear a ampliação do conhecimento e se manterem no controle hegemônico das narrativas. Líderes religiosos ou até mesmo parte dos censores agiram conforme opiniões e declarações de terceiros, ou seja, proibiram sem ao menos saber verdadeiramente do que se tratava a obra.  A Conferência Nacional dos Bispos no Brasil foi a principal voz na luta pela proibição da película em telas nacionais. De todos esses personagens políticos citados, relatos confirmam que Coriolano Fagundes e Fernando Lyra, ao menos, assistiram integralmente ao filme. Inimá Simões (1999) segue contribuindo para os pormenores censórios por trás de “Je Vous Salue, Marie”.

Depois de pedir ao presidente que vetasse o filme, a cúpula da CNBB assumiu a linha de frente de uma campanha nacional. O detalhe é que Sarney não viu o filme. Nem mesmo Dom Luciano Mendes de Almeida, que liderava a campanha, exatamente como nos piores momentos da repressão militar, em que as obras artísticas eram interditadas apenas por descrições verbais ou informações telefônicas. (SIMÕES, 1999, p. 245).

Na mesma linha de defesa, outra história a ser destacada e que foi noticiada pelo Jornal do Commercio, em maio de 1986, diz respeito a exibição do filme durante a Semana de Comunicação da Universidade do Amazonas. Esse movimento era comum entre os estudantes das universidades federais do país, mas, por conta da localização e do foco censório nessas capitais, UFRJ, PUC-SP e USP eram alvos frequentes de operações policiais, quase todas sem sucesso no que se refere a efetividade da proibição. Se tratando do Norte, todos os trâmites para mostragem do filme foram feitos na surdina, sem muito anúncio para que não despertasse atenção da Polícia Federal. Os estudantes estavam cientes da polêmica que rondavam o projeto fílmico e se esforçaram para conseguir dar seguimento nas atividades. A estudante Rejane de Souza, do terceiro semestre, organizadora do evento, comentou para o impresso como foi o processo interno para que a programação seguisse sem interrupções. Ela disse: “Sabendo que se chamássemos a imprensa e anunciássemos para todos os estudantes, não conseguiríamos passar o filme; resolvemos agir como pessoas sensatas que realmente estão interessadas em conhecer a obra e não utilizar essa desobediência civil como forma de autopromoção”. E ela seguiu trazendo outros detalhes: “Fizemos uma conta com os professores do Departamento de Comunicação e com os alunos do curso e conseguimos a cópia por um preço super acessível”. Com isso, concluímos que a atitude definida como “desobediência civil” não estava associada somente à transmissão proibida do filme e seu teor condenável, também se fazia presente na manobra feita pelos comunicólogos em conseguir o arquivo sem que ele estivesse sido liberado em objeto físico, na época, a fita VHS (Video Home System).

Ainda envolvendo o trio Sarney, Lyra e Fagundes, outro personagem significativo nas tratativas proibitivas foi Wilton Figueiredo, empresário e distribuidor das cópias do filme pelo país. Após reunião com líderes religiosos da CNBB, Sarney ligou para Lyra em caráter de urgência pedindo para que ele desse um jeito de proibir o filme sem deixar transparecer que tal medida pudesse ter partido do governo. O ministro acionou Fagundes que, prontamente, solicitou que Figueiredo não disponibilizasse a produção à censura assumindo, dessa maneira, a culpa pela não liberação nacional do filme de Godard. Se o filme não foi sujeitado para análise da censura, automaticamente não foi o presidente/executivo que proibiu, tampouco a igreja. De acordo com uma das poucas matérias sobre esse assunto, veiculada pelo El País México, o jornalista Eric Nepomuceno, escrevendo do Rio de Janeiro, contou outros detalhes sobre esse personagem importante por trás de “Je Vous Salue, Marie”. Ele escreveu, em 25 de novembro de 1985:

Ontem tudo ficou claro: não havia uma ordem oficial proibindo o filme. A iniciativa de não o exibir no festival veio do distribuidor do filme, Wilton Figueiredo, 40 anos, viúvo e muito católico. Originário do Estado de Minas Gerais, uma grande reserva do conservadorismo brasileiro, Figueiredo disse que o filme “é uma falta de respeito pela fé católica”.

Para título imaginativo e também para colaborar com a desassociação da imagem dos chefes da censura e do ministro, no auge da ditadura a Divisão de Censura contava com 250 agentes censórios que atuavam nas análises e na liberação ou não das produções culturais a nível nacional. No final da década de 1990, esse número estava abaixo de 100. Produções culturais não receberiam a atenção social que receberam se não passassem pela crítica do órgão. Em algum nível, a censura brasileira serviu como plataforma publicitária, divulgando estruturalmente criações que eles desejavam oficialmente que nunca vissem a luz do dia ou chegassem ao grande público. E o tiro no pé, também chamado de propaganda, incidiu em “Je Vous Salue, Marie” no aspecto de procura, interesse e debate social. Se a obra fosse liberada para pequenas plateias, em cinemas reduzidos, como acontecia com outras criações do mesmo cineasta, a repercussão seria mais controlada e o desgaste político poderia ser reduzido. A insistência em colocar o filme em constante foco persecutório instigou o olhar jornalístico em noticiar, fazendo da produção objeto destacável e uma fonte de curiosidade.

De família abastada, o criador franco-suíço marcou o cinema mundial com suas obras provocativas – Foto: Reprodução

Jean-Luc Godard, na melhor das intenções e consciente da genialidade artística, jamais imaginaria que seu filme pudesse receber tanto destaque sem, ao menos, ser liberado para transmissão. Idealizar o sucesso sabendo das exibições pelo país é um dado, agora, vislumbrar tal mobilização nacional, com diversas frentes, sem que o empresário Wilton Figueiredo sujeitasse o arquivo oficialmente aos órgãos censórios é quase inimaginável. Tanto a Divisão de Censura quanto os veículos de comunicação serviram como rebatedores e divulgadores de “Je Vous Salue, Marie” no Brasil, tornando a produção discutível quase quatro décadas depois de seu lançamento – o que faz do filme um exemplar da censura cinematográfica na Nova República, amplamente citado em textos que recuperam a história da censura no Brasil, mas, de fato, pouco assistido e aplaudido. Isso não significa que as práticas censórias e as políticas persecutórias do governo Sarney deveriam ser efetivadas, ao contrário, a grandeza dos significados da arte e seus autores é tamanha que, nenhuma construção inibidora, seja política ou moral, anulou sua intenção primária, ou seja, fazer pensar.

Quando ampliamos o histórico político e social que precedeu a tomada de Poder de José Sarney, percebemos o quanto aquela abertura foi um grito, principalmente dos movimentos das “Diretas Já” e de parte significativa da sociedade brasileira. A personificação de Tancredo Neves representou o primeiro passo em busca de mudanças efetivas e ideológicas contra os anos de chumbo. Ainda doente e lidando com a enfermidade que o levou a óbito, Tancredo buscou garantir que João Figueiredo, último presidente da temporada ditatorial, garantisse a passagem da faixa presidencial a Sarney, demonstrando, nessa ação, mas não só, quais eram seus ideais. A Constituição Federal seria promulgada três anos após o lançamento de “Je Vous Salue, Marie”, em 1988, não impedindo Sarney de seguir os anseios e práticas democráticas defendidas por Neves até os últimos dias da vida.

Nos limitamos objetivamente às ações praticadas contra o filme de Jean-Luc Godard, não analisando todo o período do governo emedebista. Tendo tal noção em mente, percebe-se um conluio político, religioso, minoritariamente civil e amparado, à sua maneira, pelo jornalismo profissional. Ainda que Fernando Lyra, Coriolano Fagundes e grupos progressistas agissem de maneira contrária às decisões presidenciais e religiosas, como foi feito, de pouco valeu os esforços: a proibição foi consumada. Institucionalmente a obra teve sua função banida, mas, nos limites sociais, ela incidiu no centro principal.

Artigo parcialmente editado para publicação digital. Para ler na íntegra as 15 páginas, entre em contato. Este trabalho também concorre ao prêmio José Marques de Melo, submetido no XIII Encontro Nacional de História da Mídia – Alcar 2021.

Saga da prateleira

Ela não ia existir ali naquela parede. Estava escondida atrás de uns entulhos. Antes dela havia uma menor, quadrada, que mudou de endereço e aparência: antes era azul e agora é marrom e, da varanda, foi para o banheiro. Aquela mudança de móvel que divide o amor e o ódio das donas de casa — dos donos também, para ser inclusivo. A comprida, de pouco menos de um metro e meio, também recebeu pinceladas em suas dimensões e, de encardida, virou branca opressora. E ela humilhou.

Foram dois dias tentando ajusta-la e fazendo com que ficasse harmoniosa aos olhos de quem topasse com ela na entrada da casa. Para não ficar sozinha, agora acomoda quatro jarros de vidro garimpados pela minha vó durante alguns anos. Onde moramos não tem mais espaço para adaptá-los, então achamos justo levá-los para outro endereço. A parede branca, ela também branca, os garrafões verdes e um outro rosa choque dão boas-vindas a quem quer que chegue lá na varanda.

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Burchard em detalhes

Alemão com alma caiçara, Burchard construiu todo seu empreendimento artístico explorando diversos mundos e diferentes realidades, mas foi em Paraty, a partir da década de 1970, a ancoragem mais frutífera e inspiradora do artista. Ao lado da companheira Lore Hacker, desbravaram juntos as possibilidades que a cidade litorânea tinha para oferecer. Na altura, o município estava longe de ser destino turístico e ainda se via sob efeito da rusticidade da história. Dentre os lugares onde o casal viveu, o Saco do Calhau ainda é lembrado com certa nostalgia. Lá, ambos deixaram e também extraíram suas marcas sem nada dever. ‘’Toda a história dele, toda nossa história… foi em Paraty’’.

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Eu tenho horror a pobre

As primeiras horas de 2021 foram muito especiais, contrariando o sufoco do ano que passou. Primeiro com a família, rememorando as dores dos últimos meses e também projetando as possibilidades dos novos dias que se anunciam a todos nós. Depois, numa mudança de cenário e mentalidade, me vejo em volta de oito distintas pessoas da média burguesia paulistana e carioca. Tinha uma salvadora da pátria, mas ela era europeia. Dividi minha virada em três momentos: sagrado, purgatório e profano. E aqui destaco o segundo.

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Fordismo da aparência

Duas semanas atrás estava conversando comigo mesmo no Twitter sobre um tema que tem me interessado bastante: a busca pela beleza. Rolos e mais rolos de selfies estampam as redes sociais com aquilo que de melhor temos para mostrar: nosso rosto, bunda, partes íntimas, cabelo e por aí vai. O confinamento causado pela pandemia estimulou ainda mais a exposição de nossos eus, enquanto alguns, sem nenhuma timidez, se exibem em festas ou encontros amigáveis. Ou seja, a sede pela exibição é tamanha que nem durante isolamento pandêmico o sujeito para de produzir reflexo de si. Ele precisa postar seus status e afazeres egoístas mesmo sob olhar crítico daqueles que ainda se mantém reclusos — ou minimamente afastado dos outros. Sem se dar conta do momento inoportuno, imagino que narciso deve achar bonito o que publica nas redes.

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Então é eleição

Então é eleição, e o que o candidato fez? (Uma parte fez muita merda, já outro preferiu usar as nádegas para esconder dinheiro. Quem trabalhou não fez mais que a obrigação, convenhamos.)

O mandato terminou e nascerá outra vez (O mandato de um acabou, recentemente, porque duvidou da letalidade do vírus e agiu contra o distanciamento social. O que vai nascer é mato, olhado direto da raiz.)

Então é eleição, a festa da democracia (No Brasil atual eleição nem é mais sinônimo de democracia, na verdade virou mais uma porta para autoritários chafurdarem imundícies. Não é o fim. Pense no seu voto.)

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Ao Vivo | Setembro Amarelo

E disse Albert Camus: ”Só existe um problema filosófico realmente sério: o suicídio. Julgar se a vida vale ou não vale a pena ser vivida é responder à pergunta fundamental da filosofia. O resto, se o mundo tem três dimensões, se o espírito tem nove ou doze categorias, vem depois.”

É com as palavras do escritor franco-argelino, escritas no livro ‘O Mito de Sísifo’ (1942), que abro essa publicação sobre a temática do suicídio. Desde que o mundo é mundo procura-se respostas para esclarecer essa problemática multifatorial que se mantém rodeada de tabus e dilemas até os dias de hoje.

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Por muito tempo a chamei de mamãe

Nas primeiras horas do dia 17 de dezembro de 2019, por volta das 3h10 da madrugada, mamãe partiu dessa vida. Diferente de Meursault, não titubeei na certeza: ela havia partido. Meu telefone tocou inúmeras vezes mas, por estar no modo silencioso, não escutei nada. Pela manhã, quase oito horas, reparei as ligações não atendidas da minha tia, Carolina, e a mensagem que dizia objetivamente: ”Sua mãe morreu.” Nesse momento me recordo do nada, da sensação de total suspensão da vida, me lembro de andar pelo corredor da casa sem saber o que pensar. Foram cinco minutos cinematográficos; veio toda memória, os aromas, conflitos e ao mesmo tempo o nada quase palpável. Não chorei na primeira hora. Depois de aterrizar a parte traseira do meu infortúnio, liguei para minha avó e tia. Ambas estavam desoladas e eu, em outro estado, na tentativa de consolá-las, acabei sendo consolado por elas, principalmente pela matriarca, agora sem a primogênita. Nesse mesmo dia precisava cumprir algumas atividades da faculdade e cumpri, apesar de tudo. Era final de semestre, estávamos todos esgotados e havíamos agendado para aquele dia infeliz, sem imaginar o ocorrido logicamente, um churrasco de confraternização e encerramento do período letivo. O encontro aconteceu, conseguimos rir das últimas situações da faculdade, mas só meu corpo físico estava lá. Se preocuparam em reagendar a festa, mas não fazia sentido dividir minha perda desse jeito. Numa leve contradição, tal atitude seria egoísmo. Inclusive, meus amigos(as) foram muito gentis comigo. Distante da minha família sanguínea, desequilibrado psicologicamente, eles(as) atuaram com o apoio emocional e afetivo que eu precisava. Assim como o Vittor, o único elo que me unia à minha casa, à minha vó e à minha mãe. Seria impossível aguentar os dias que antecederam minha viagem sem os cuidados dessas pessoas. Ela morreu numa terça, mas só consegui chegar em Paraty na sexta-feira, dia 20 de dezembro. A tristeza, enfim, encontrou seus pares.

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Sesc Paraty | Religião e diversidade, Pastor Henrique Vieira e Matheus Ruffino falam sobre os temas

Religião e diversidade sexual podem ser assuntos discutidos de forma cordial e complementar? Muitos vão dizer que não, mas as temáticas não só podem se cruzar, como devem ser entendidas de modo amplo e prático. Bom, foi essa a tentativa estabelecida entre mim e o Pastor Henrique Vieira, conhecido por sua visão humanizada e progressista daquele que pode ser Deus. Numa conversa sugerida pelo Sesc Paraty, falamos sobre nossa relação com a religiosidade e o quanto a igreja atravessa a comunidade LGBTQIA+ de diversas formas, causando estigmas e sensações das mais variadas.

O podcast mediado pela jornalista Carol Bataier e pela idealizadora do projeto Papo Dez Priscila Rodrigues versou sobre o papel das instituições religiosas na atualidade, a importância de contemporizar os textos bíblicos, principalmente aqueles usados para justificar lgbtfobias, e também contribuiu para jogar luz sobre a definição de um Deus humano e mais próximo desses corpos diversos, por vezes, renegados por cristãos intolerantes.

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Bastidores de ‘Foi você’

A ideia para a criação desse conto surgiu durante uma insônia movimentada, como quase todas que aparecem durante a noite. Antes de dormir a cabeça deste que lhe escreve vira uma panela de pressão e, ocasionalmente, é preciso anotar algumas ideias no bloco de notas do celular. São frases nunca ditas, possíveis pautas para essa plataforma, filosofias baratas e trechos de textos já em andamento. Acredito que todos e todas que possuem o hábito de escrita ou composição de algo textual já passou ou passa por essa descarga de ideia; ela simplesmente vem e precisa de amparo. No dia seguinte, quase sempre, ela perde um pouco daquele tesão inicial, mas ainda assim ilumina a composição do objeto produzido.

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