Saga da prateleira

Ela não ia existir ali naquela parede. Estava escondida atrás de uns entulhos. Antes dela havia uma menor, quadrada, que mudou de endereço e aparência: antes era azul e agora é marrom e, da varanda, foi para o banheiro. Aquela mudança de móvel que divide o amor e o ódio das donas de casa — dos donos também, para ser inclusivo. A comprida, de pouco menos de um metro e meio, também recebeu pinceladas em suas dimensões e, de encardida, virou branca opressora. E ela humilhou.

Foram dois dias tentando ajusta-la e fazendo com que ficasse harmoniosa aos olhos de quem topasse com ela na entrada da casa. Para não ficar sozinha, agora acomoda quatro jarros de vidro garimpados pela minha vó durante alguns anos. Onde moramos não tem mais espaço para adaptá-los, então achamos justo levá-los para outro endereço. A parede branca, ela também branca, os garrafões verdes e um outro rosa choque dão boas-vindas a quem quer que chegue lá na varanda.

Nunca peça para um virginiano fixar uma prateleira na parede. Se tiver outro lugar onde se coloque uma, aí tudo bem, mas na parede jamais! Ela vai humilhar, irritar, menosprezar, colocar em xeque todo o repertório de conhecimento que por ventura ele tenha. E foi o que ela fez comigo.

Na primeira tentativa, no primeiro dia, os buracos na parede ficaram apertados demais, demandando um rodopio frenético da furadeira para que alargasse e, enfim, ajustasse o parafuso. Ponto pra ela, a branca opressora. Depois de superado o entra e sai na parede, algo parecia não estar padronizado e logo saltou à única percepção neurótica presente: a percepção do virginiano aqui. Completamente infeliz e inquieto, tornei a repetir o procedimento, só que agora inversamente. Tirei prateleira, tirei parafusos e troquei o suporte menor por outro idêntico. Mais um ponto pra ela: Alemanha 7 x Brasil 0.

O suporte que tinha o tamanho reduzido influenciou na metragem do novo furo, e é isso mesmo: outros dois buracos foram feitos. No fim desse dia a parede quase precisou ser emboçada novamente por causa dos túneis abertos nela. Mas exageros à parte, duas coisas precisam ser destacadas nessa cena: minha habilidade manual em dotes culturalmente associados à prática heteronormativa masculinizante (a modernidade me obriga a gastar repertório) e a desatenção do virginiano que não percebeu a diferença dos pés da prateleira antes de colocá-las no devido lugar. Quem nunca?

O mínimo esperado de uma prateleira não se cumpriu, caro leitor; depois da saga do tira e bota, percebi que ela estava torta. Isso mesmo: TORTA! Alemanha 19 x Brasil -2.

Insatisfeito, voltei para casa abatido e desencantado da vida. A luta entre corpos suados aconteceu numa quarta-feira e o retorno para o gran finale aconteceria no domingo, quatro dias depois. Eram dois centímetros de tortura — tanto de inclinação quanto de sofrimento psicológico. Não tive paz nem mesmo na ausência dela, a branca, mediana, esguia: como dormir sabendo que uma prateleira estava visivelmente torta? Só de imaginar gera pequenos calafrios. O mesmo acontece com quadro desalinhado. Cada um com seus problemas, ok? Circulando! Mentira, continue…

Chegou o domingo. Era de manhã. Encarei a manca de uma perna, ela rebateu o olhar, e ficou nítido que alguém precisava vencer o impasse. Por conta do horário, pouco menos de oito da matina, ela não pôde ser atacada logo na chegada. O tempo estava fechado para ela que não era nada jovem.

The time has come! Que rufem os zunidos da furadeira!

Devido a buraqueira de quarta-feira, arranjar espaço para outras perfurações não foi tarefa tão fácil. As buchas não saiam nem por reza porque estavam quase atravessando a parede. Nessa altura do campeonato a goleada não era mais numeral, mas de caráter, sabe? Enfim, um dos suportes foi realocado, trazendo um pouco de alívio para quem assistia e protagonizava o ensejo. A hora da danada subir para trono era dada. Suspense!

Agora a prateleira estava bamba, móvel, balançando sobre as estruturas. Penso que nada resumia tão bem aquele momento como o trecho clássico do Magal: ”E o meu sangue ferve por vocêêê, sua filha da puta.”

Nessa hora, dona Eni já havia dito que ia sair da varanda e não ficaria ali para assistir a briga infinda entre mim e a colonizadora. ”Eu vou lá pra dentro. Você tá me deixando nervosa”. A bem da verdade é que ninguém mais tinha fôlego para tirar aquilo tudo outra vez, do mesmo jeito não havia mais parede para furar. A perfomance que a prateleira fazia era um jeito dela mostrar quem mandava ali. Irredutível, ela zombou do psiquismo neurótico deste virginiano.

Na parte superior dos suportes de alumínio havia dois furos para reforçar a firmeza da madeira que foi colocada acima. Perfurada somente duas vezes, uma em cada lado, ela parou de requebrar e se redimiu à força e ao desejo do humano sistemático. Não é porque dominava há milênios que detinha o controle da situação. Os jarros voltaram para o mesmo lugar de antes, agora sem o perigo de serem derrubados pela branca longilínea. Todos, enfim, aliviados pelo possível fim da saga da prateleira. Uma nova história estava pronta para recomeçar a partir dali.

A fim de admirar a quase obra de arte, meu eu virginiano se distanciou para analisar de longe o árduo trabalho feito até aquele momento. Nem a renascentista Pietà demorou tanto para ser concebida; até a Tina Turner se aposentou mais rápido; nem a Rainha Elizabeth II viveu tant…, espera…! E aí, já pensando na vitória do bem contra o mal, o mesmo olhar atento que percebeu tardiamente a diferença do suporte se virou e constatou, incrédulo, o pequeno detalhe de 1 (um) centímetro:

— ”Ainda tá torta”.

Tinha que ser branca.

Sobe a vinheta: Now, the world don’t move to the beat of just one drum (…) ♫♩

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